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Quarta-feira passada foi meu aniversário.

No mesmo dia em que começaria um curso que eu resolvi fazer onde me comprometi a desligar o computador e o celular… que só seriam ligados no mesmo horário do domingo seguinte.
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Também já imaginava que ficaria boa parte do tempo em silêncio…
Silêncio é aquela coisa que quem me conhece um pouco sabe como sou falante, aberta e entusiasmada com a vida e as pessoas e  por isso já pode imaginar o quanto isso poderia ser bem complicado pra mim.
Não foi.

Passei por 4 fases bem distintas, divertidas e repletas de reflexões e aprendizado que eu vou te contar agora:

Primeira fase: PUTA MERDA!

O mundo vai acabar.
Ele estava completamente nas minhas mãos e agora não poderei fazer mais nada.
Pessoas importantes morrerão… e nem no enterro poderei ir…
Fofocas incríveis acontecerão nos grupos do WhatsApp e eu ficarei sem saber de nenhuma delas…
E claro que, a partir de agora, as fofocas serão todas sobre mim.
Meus amigos não sentirão nenhuma falta de mim, na verdade nem lembrarão que eu existi um dia.
Eles, inclusive, irão planejar a viagem mais legal do mundo… Sem mim.
A viagem que eu sempre sugeri, mas que sempre foi difícil juntar todo mundo eles farão.
Todos, menos eu que estava offline.
Quando eu acessar a internet de novo, se eu sobreviver, verei as fotos maravilhosas da viagem deles e só lembrar a cada uma que eu também deveria estar alí.
Não sentirão falta nenhuma das minhas piadas.
Não terá nenhuma mensagem deles.
Eu perderei as oportunidades profissionais mais incríveis do planeta por causa disso.
Meus clientes terão desistido de mim. Claro! Para sempre.
Meu filho vai precisar da mãe como nunca antes precisou, nem mesmo quando era recém nascido precisou tanto, e eu estarei inacessível porque sou a pior mãe do mundo.
Minha conta no banco explodirá.
Minha casa também.
Meus cães cairão na piscina, morrerão afogados e eu nem ficarei sabendo para ao menos chorar um pouco.
Pessoas importantes farão aniversário e eu não poderei cumprimentá-los.
Obviamente elas deixarão de me amar por causa disso.
Eu faço aniversário justo hoje e pela primeira vez não vou ler, curtir e muito menos responder as mensagens que receber das pessoas queridas.
Também não atenderei ligações das pessoas mais próximas.
Claro que elas ficarão bem magoadas por causa disso e nunca mais falarão comigo.
Óbvio que será o suficiente para que ninguém mais lembre de me chamar para nada de legal que farão de agora em diante e nunca mais me darão parabéns no dia 28/11, afinal, eu estava offline.

Quando eu ligar o celular de novo, o mundo como eu o conhecia até meter o dedo naquele botão vermelho do “desligar” obviamente não existirá mais.
Por isso ele é vermelho.
Pra gente prestar atenção.
Que nossa vida depende do celular ligado.
Podemos morrer de stress, mas precisamos responder todas os e-mails, todos os inBoxes, todos as mensagens do WhatsApp, precisamos ver todos os posts de cada uma das centenas ou milhares de pessoas que acompanhamos na vida online.
Mas antes de morrer, não esqueça, grave um Story…

A segunda: E se…

Quantas mensagens não visualizadas será que tem até agora?
E se não tiver nenhuma e eu for realmente tão insignificante?
Nossa… será?
Será que alguém já morreu?
Ai, tomara que não…
E se…
E se…
E se…
E… se…
E…

E se…

E…

A terceira: Ohmmmm….

Cri cri…

Cri cri…

Cri cri…

Cri cri…

 

 

 

A quarta: Desliga fora, liga dentro!

Olha só!!!
Tem um espaço aqui dentro que eu nem tinha me dado conta…
E é tão bonito.

Há imagens, cores, músicas, paisagens, viagens.
Há pessoas… uma referência que eu mesma construí de cada uma delas.
Há Planos…
Coisas não resolvidas.
Coisas importantes para resolver.
Coisas para deixar pra lá.
Coisas para esquecer.
Muitas…

Coisas para abrir mão…
Crenças velhas, empoeiradas, antigas, que não me servem mais.
Decepções, frustrações, tombos…
Coisas para separar
A dor do aprendizado.
A amizade do interesse.
A gratidão e o desapego.
O tempo que foi e o que virá do presente.

Coisas para escolher e manter
Novas crenças felizes, prósperas e libertadoras.

Sonhos.
Muitos.
Bem mais do que eu imaginava.

Há fé.
Dores do passado para libertar.
Há felicidade para guardar em potinhos coloridos com uma etiqueta de poesia.

Há um tipo mais iluminado e tranquilo de felicidade.
Coisas debaixo do tapete da alma.
E há luz.

Há silêncio.
E quantas surpresas boas há no silêncio.
Há a certeza que silenciar o lado de fora te permite ouvir a voz que vem de dentro.
E quando você dá mais um passo e consegue silenciar dentro terá a oportunidade de ouvir um pouco mais profundamente o que está mais para dentro ainda.
Tão lá no fundo que você achou que era um mergulho impossível, de tão profundo.
E é lá que você tem, finalmente, a chance de descobrir mais sobre você, suas prioridades, seu propósito, a vida que quer desenhar.
A música que quer compor.
O livro que tem pronto para escrever.

Dentro de nós tem um espaço intocado e perfeito onde encontramos autoconhecimento, autoestima, autenticidade, magia e beleza.
Há espaço para tudo mais que eu quiser colocar nessa história chamada de SUA VIDA.
É lá que mora o que as religiões deram o nome de Deus.
Há espaço para respirar e existir.
Isso basta, acredite.

A quinta: 1, 2, 3 e já!

Vamos apertar esse botaozinho verde aqui ligar e…
Olha!!! Um mooooonnnnnnteeeeee de e-mails e mensagens não lidas!!!
Apaga esse… responde aquele… esse aqui vai pro spam… mais um pro lixo… esse é importante… oba! cliente novo… muitas mensagens de aniversário…. viva… mais mensagens… que felicidade em me sentir querida… audios divertidíssimos daqueles amigos mais criativos… imagens fofas… poesias… apaga esse… ah… que lindo esse… nossa, que saudade dessa pessoa.
Ai ai… estou bem feliz com todos os presentes que me esperavam aqui nesse aparelhinho… ai ai… que saco esse monte de pendências para organizar e resolver… Nossa, quanto lixo!!!
Pronto, 3 horas e tudo resolvido…
E o mundo continua exatamente como estava antes.
Ninguém morreu.
Absolutamente nada mudou.
O que precisava de mim me esperou.
Quem decidiu continuar gostando de mim continuou.
E a vida lá fora também continuou.
Exatamente do ponto onde em que tinha parado.
Na verdade a vida nem parou.
Eu parei.
E foi assim que, desligada do mundo inteiro, me liguei no que significa religião:
RE-LIGAÇÃO.

E foi assim que eu, finalmente, descobri o que tem, bem no centro de Deus…
Eu.