A carta DEFINITIVA de Branca Barão:

Uma breve Introdução:
Tenho consciência de que “DEFINITIVO” é uma palavra que não combina para falar das coisas da vida.
Apesar de ser o que eu adoraria que meus amigos e meus amores fossem, eu sei que só posso querer isso enquanto eles também quiserem… e essa condição faz da palavra DEFINITIVO não apropriada para falar deles também.

Mesmo assim, dentro de toda essa minha INTENSIDADE, me permitirei usá-la, com o significado de um querer maior do mundo, aquilo que “hoje eu quero para sempre” e quero muito que seja DEFINITIVO, mas com toda aquela humanidade que me cabe e que me dá o direito de mudar de opinião um dia e vir aqui editar minha carta “DEFINITIVA” que eu sei que nem é tão definitiva assim.

Afinal, espero ainda ter mais uns 44 anos para fazer, desta carta definitiva de verdade.

Funcionará assim:

– Se você gosta de mim hoje, essa carta é pra você.
– Se você já me amou um dia e o que ficou de mim aí em você é bom, essa carta é pra você.
– Se você até pensou em me amar, mas faltou tempo, ou coragem, essa carta é pra você.
– Se você está aqui, por acaso, lendo isso agora, e nem me conhece, deve haver um porquê, então, essa carta é pra você também.

Quando eu morrer…

– Quando eu morrer não quero choro.
Afinal, não seria justo.
Eu é quem deveria estar chorando, por ter me retirado, sem aviso prévio, e precocemente dessa incrível festa, a qual chamamos de VIDA.
Não importa quando isso vai acontecer, morrer é uma sacanagem que sempre acontece precocemente.
E, já que morri, não posso mais chorar.
Então segurem a onda aí… nada de chorar só porque eu morri!

Certeza que se eu pudesse eu choraria pelos chocolates que não poderei mais comer. Principalmente aqueles bem caros, comprados no free shop, com recheio de Jack Daniels ou de Amarulla…

Choraria pelos longos passeios, que não farei mais, com os meus cães.
Pela areia que não vai mais colar no meu corpo quando ventar já que não estarei na praia.
Pelas ondas que não vão mais quebrar, com força, bem geladas no meu corpo já que não entrarei mais no mar.
Pelos novos amigos que não poderei mais fazer.
E pela saudade que sentirei de você.

Choraria pelas viagens que não farei mais.
Pelas músicas que eu não dançarei.
Pelos shows das bandas que eu amo que não mais irei.
Estaria, sem dúvida nenhuma, chorando pelas coisas do mundo que nem descobri existir e que parti daqui sem experimentar.

– Quando eu morrer não quero vela.
Nada que me mande mais para o além do que eu já fui.
Grata.

Ah… me poupem.
Me mantenham por aqui do seu jeito.
Falem de mim.
Contem histórias das quais fiz parte.
Lembrem das coisas que eu adorava.
Das coisas que eu dizia.
Das músicas que eu cantava.
Das piada que eu contava e que eu geralmente estragava os finais.
Dos foras que eu dava.
Das minhas grandes cagadas.
E dos meus sucessos.
Assim, eu cumprirei a minha meta de viver pra sempre.

– Quando eu morrer, música triste será proibida. 

Alguém precisa, urgentemente, se incumbir da playlist do meu velório:
Por favor, caprichem nas músicas anos 80 e 90 que eu adoro!
Aquelas músicas que me mantiveram jovem para sempre e feliz a vida inteira.

Não se esqueçam de “Meu amor, hoje o sol não apareceu…” que vai representar bem esse momento que de triste não tem nada porque esses mesmo sol, que hoje não aparece mais pra mim, apareceu dia após dia, brilhante e quente, em todos os meus demais dias, durante todos esses anos, renovando minha fé sempre que eu pensei em abandoná-la pelo caminho.

Adicionem uma pitada de Cazuza com o meu hino (aposto que essa ele compôs essa pra mim!) Exagerado… é… eu adoro um amor inventado.
E vivi, exageradamente, cada oportunidade que a vida me deu de um amor assim com todos os dramas, todas as lágrimas, todos os beijos de novela desses destinos que foram traçados na maternidade.
E do meu e do seu.

E para finalizar com um leve toque de drama que, no fundo no fundo, eu adoro, podem incluir, por exemplo: “Flor de Lis” do Djavan… e cantem juntos, em coro, aquela parte que me representa tanto: “Eu só sei que amei… que amei… que amei….”
Ah… que lindo que vai ser… já estou chorando aqui, espero que BEM ANTECIPADAMENTE, só de imaginar, você lá, bem velhinho, depois de estacionar numa vaga para idoso, entrar no meu velório com sua bengala pra me homenagear e pra cantar isso pra mim…

E como amei…. PQP!
Sempre como se fosse a primeira e última vez…
Tive a sorte de viver uma vida com mais primeiras e ultimas vezes que a média… Mergulhei fundo e de cabeça em cada novo amor que a vida me presenteou.
E a cada decepção eu jurava, para mim mesma, que isso nunca mais me aconteceria até olhar nos olhos de alguém que me dava a certeza mais que absoluta de que eu não tinha aprendido absolutamente nada.
E quando eu me dava conta, já estava naquele trampolim mais alto das piscinas olímpicas da vida, pronta para me jogar toda exibida, fazendo todas as minhas piruetas.

Também amei cada lugar que fui, cada café que tomei, cada uma das muitas tatuagens que eu fiz (13 até aqui e contando…), as boas conversar que tive, os abraços que não queria que tivessem fim, os papos jogados fora, meus cães, gatos, meu filho, meus mestres, meus grandes amigos, as madrugadas em claro, cada drink, cada música de cada banda e amei, de algum jeito, já que também está lendo isso agora, você.

Amei cada aventura, cada aprendizado e cada porrada que tomei.
Porque hoje eu sei que foram elas que me transformaram no que fui e que me levaram por caminhos tão intensos e tão cheios de significados e aprendizados para eu chegar até aqui, onde eu estava ontem, logo antes de morrer.

Amei o trabalho que fiz cada vez que subi no palco.
Amei cada palavra que disse e que escrevi.
Cada rolha que tirei de cada garrafa de vinho que comemorava alguma bobagem que era, naquele momento, a coisa mais importante da vida pra mim.
Amei cada prato de cada restaurante que fui com alguém importante e que provavelmente me ouviu dizendo: “Puta merda, essa é a melhor coisa que já comi na vida!”
Depois entendi… Não era a comida.
Era o sabor daquele encontro que me fez achar que o prato é que era tão especial.
Não era o prato, era você!

Amei cada segundo que antecederam cada primeiro beijo que dei na vida porque naquele exato momento eu simplesmente sabia, que valia muito a pena estar viva exatamente naquele “aqui e agora”.
Apesar de cada dor, de cada perda, de cada bandaid que precisou ser arrancado de uma vez só.

– Quando eu morrer não quero flores.
Não arranquem algo tão lindo dos jardins da vida para morrerem junto comigo.
Por favor, mantenha as flores vivas, em seus devidos jardins.
Elas são muito mais bonitas quando não são posses.
Assim são também as pessoas.

Não leve flores, mas leve um presente. Não pra mim…
Onde estarei,  não poderei mais receber esses mimos que eu adoro ganhar… as canetinhas, canecas, adesivos e bichos de pelúcia.
Ou qualquer outra bobagem repleta de significado.
Leve um presente que eu adoraria ganhar para trocarem entre vocês.
Alguém assume aí a responsabilidade de fazer uma dinâmica de grupo (que claro que não poderia faltar no meu incrível velório…) e façam um sorteio para descobrirem quem será AMIGO COLORIDO de quem.
Nada a ver com a expressão de amizade colorida que conhecemos….
Claro que se quiserem se pegar entre si, também podem, fiquem à vontade quanto a isso, mas a ideia é que quem era amigo da Branca, se torna amigo Colorido depois da Branca, sacaram? 

Assim muitas novas amizades acontecerão nesse dia especial.
Assim você sentirá menos saudade de mim.
Assim eu corro menos risco de você me esquecer.
Assim você terá mais um motivo para lembrar que um dia, eu existi, com todo o meu barulho e toda a minha bagunça.
Porque fui eu que te dei, com a minha partida, esse novo bom amigo de presente.

– Quando eu morrer não quero caixão, nem meu corpo lá deitado.
Nada de me maquiar e me arrumar…
Já fiz isso muito nesses anos em que tive a oportunidade de celebrar e desfrutar essa vida. Já fiquei linda do meu jeito para cada show, opara cada festa que achei que valia a pena ir. Eu colori minha cara, meu corpo e minha alma quantas vezes eu quis e com quem eu achei que mereceu.
Me enchi de brilho e transbordei toda cor que havia aqui dentro.
Se a vida disse: Basta! Então basta.

Mandem me cremar e arrumem uma caixinha bem linda, colorida, pintada a mão (afinal, tenho amigos e filho artistas pra que?) e me coloquem lá dentro. Assim virarei poeira de estrela.
Coisa que tenho uma “convicçãozinha” de que já somos…
Assim, alguém pode me levar pra viajar e eu posso virar parte de lugares lindos.
Posso ser jardim ou oceano.
Posso ser um pouco de mim em cada canto, como sempre escolhi caminhar pela vida.
Depositem um pouco de mim também no pé da montanha russa mais incrível que encontrarem, uma repleta de loopings assim como foi a minha vida.
Escolham aquela com a decida que der mais gelo na barriga do mundo inteiro.
É isso que quero ser quando morrer, decidi:
Adubo de montanha russa!

Quero festa.
Piadas, docinhos, gente falando alto e gargalhando, por favor.
Quero luzes coloridas, bolhas de sabão.
Quero que você pegue o microfone e suba no palco (óbvio que precisa ter um palco e microfone no meu velório!) e EXERCITE SUA CORAGEM
Fale algo incrível e pela primeira vez, recite uma poesia, relembre uma piada e me mantenha viva nas suas palavras, dance.
Se você sentir um pouquinho do gelo na barriga que sinto cada vez que subo no palco nessa hora, você terá feito a minha vida valer a pena.

À beira dos meus 44 anos me deu uma vontade danada de escrever isso tudo.
Sinto que estou bem no meio.
Disse isso aos 40 também.
Lá, eu achava que 80 era o ideal de longevidade.
Mudei de ideia.
Hoje acho que mereço chegar aos 88.
Afinal, planejo um cruzeiro incrível da terceira idade, aos 80 e poucos, e, sendo assim, não posso morrer antes.
Preciso dançar com todos os velhinhos à bordo.
Seria um puta desperdício.
Vai que Deus tem piedade dos meus compromissos e me deixa aqui mais um pouco…

Não gosto de desperdícios…
Que bom que eu não economizei vida, nem risadas.
Nem histórias (nem as de contar, nem as de viver!)

Não economizei dinheiro. (Ah… como eu tentei…)
Deixei de herança apenas as minhas histórias…
Deixei apenas o quebra-cabeças da vida que montei “para quem interessar possa” (adoro essa expressão…)

Que bom que não economizei coração.
Que não poupei emoções.
Senti tudo, de bom e de ruim que descobri que havia para se sentir nessa vida.
Fui, da euforia, à depressão.
De derrotas à abraços.
De orações à amassos.
Com toda intensidade e poesia que sempre permiti que fizessem parte de mim.
Que bom que eu falei cada “Eu te amo” que havia para ser dito.
Que bom que também mandei à merda cada pessoa que eu, por algum motivo, achei que devia dar um pulinho até lá…
Que bom que aprendi a dizer não.
Que bom que disse sim toda vez que meu coração mandou.

Falei todos os palavrões, dei todas as risadas, fiz todas as tatuagens que eu quis.
Afastei de mim cada pessoa que, de alguma forma, puxaram meu freio de mão para que eu deixasse de ser tudo que eu posso ser e me perdoei por cada erro e por cada tropeço.
Perdoei e pedi perdão.
Abracei cada pessoa e senti cada coração que cruzou o meu caminho.
Que bom!

Quando eu morrer quero ir com a certeza de que eu tive amigos bons e leais.
E que desfrutei da plena confiança desses amigos.
Eu só quero a certeza de que eu, apesar de cada tombo que a vida me deu, descobri meu próprio jeito de permanecer em pé.

Quando eu morrer, também quero aplausos…